A
vendedora autônoma Pâmela Ortolan, 30 anos, de Canoas, experimentou
diferentes e até contraditórios sentimentos nos últimos dias. Na
quarta-feira passada, foi a vez do susto e do pavor: um homem a
assaltou quando ela estava com o filho de 10 anos e roubou o seu
carro.
No
dia seguinte, veio a surpresa: em um bilhete dirigido a ela, o ladrão
alegou arrependimento e indicou onde ela poderia encontrar o veículo.
Nesta segunda-feira, ao recuperar o carro, a vendedora manifestou o
perdão e até certa compaixão com a situação descrita pelo
assaltante.
A
curiosa e inusitada história teve início no final da tarde de
quarta. Pâmela havia pego o filho na escola, em Canoas, e, antes de
ir para casa, decidiu dar uma rápida passada na casa de uma amiga,
no Bairro Rio Branco, naquele mesmo município.
Estacionou
o carro, um Hyundai HB20, e desembarcou, deixando o menino no
veículo. Nesse instante, foi abordada pelo assaltante.
-
Ele me mandou entregar a chave, e eu disse que ela não estava
comigo. Ele então colocou a mão numa pistola cromada que carregava
na cintura e me disse: "Passa a chave e manda o teu filho
descer". Como vi que ele tinha visto o meu filho, resolvi
obedecer - contou.
Só
o extintor O
ladrão esperou o menino descer do carro e fugiu com tudo o que
estava dentro do veículo. No dia seguinte, a mochila do filho da
vendedora foi encontrada nas proximidades da escola. Era só o início
das surpresas.
-
Meu filho chegou em casa dizendo que tinha algo para me mostrar. Em
uma das folhas do caderno dele, o homem que tinha roubado o carro
escreveu um bilhete, dizendo que estava arrependido, que só havia
feito aquilo porque estava desesperado, sem emprego, que a arma era
de brinquedo e que tinha chegado à conclusão de que não servia
para ladrão - contou Pâmela.
Como
Pâmela havia registrado a ocorrência de roubo, o carro foi
recolhido ao depósito do Detran. No final da tarde desta segunda,
ela foi buscá-lo. Só deu falta do extintor de incêndio.
-
Não é nada, para quem achava que tinha perdido o carro. Todo mundo
dizia que iam cloná-lo. Eu cheguei a ter esperança de que usassem
em algum assalto e depois o liberassem, mas já não estava
acreditando mais - disse.
"Nem
dá mais aquela raiva" Pâmela,
como a maioria das pessoas assaltadas ou vítimas de outros tipos de
violência, chegou a ficar revoltada no momento da ameaça e na
concretização do roubo.
-
Ele, no início, estava tranquilo. Depois, como eu resisti, ele
chegou a ficar um pouco alterado. Mas agora nem me dá mais aquela
raiva que deu na hora - admite.
Mais
do que eliminar o rancor, a vendedora autônoma não esconde certa
preocupação e a vontade de ajudar o homem que roubou o seu carro.
-
Ele disse que está desesperado por causa do desemprego. Cheguei a
pensar em buscar contato para ver se alguém pode ajudá-lo a
conseguir um emprego.
Letra
bonita, português correto
No bilhete deixado no caderno do filho da vendedora, com uma letra bem legível e um português correto, o assaltante, além de alegar arrependimento, disse que não tem jeito para ações criminosas, deu conselhos e até elogiou a vítima:
"Moça,
desculpa ter roubado teu carro, me arrependi. Abandonei ele na rua
primeiro de maio, não tirei nada dele. Só a mochila que eu ia dar
para o meu filho, mas me arrependi e vou abandonar ela perto do La
Salle. Desculpa. Também sou vítima da sociedade, mas não sirvo
para ladrão. A arma era de brinquedo. Que o susto sirva de exemplo
para nós dois. Para mim também não foi fácil. Vou continuar
procurando emprego. Nunca deixe a chave na ignição. Você é muito
linda e desculpe pelo que fiz você passar. Obs: A bolsa eu deixei
você levar na hora".
Fonte: http://www.lagartense.com.br/
